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(Capa: Matt Johnson/S&S Art Dept.; Adaptação de Capa: Laísa Andrade) |
KIM JIYOUNG, NASCIDA EM 1982
Tema: Misoginia, Discriminação, Matrimônio, Maternidade
Kim Jiyoung, Nascida em 1982 é um romance que
narra a vida de Kim Jiyoung, uma mulher que, após o nascimento da filha, começa
a apresentar episódios emocionais intensos e a incorporar vozes de outras
mulheres, vivas ou mortas. O comportamento incomum desperta a preocupação do marido,
que decide levá-la ao psiquiatra. A partir daí, a obra reconstrói sua
trajetória desde o nascimento, revelando as marcas do machismo enraizado na
sociedade sul-coreana.
Essa edição foi publicada em 2022 pela Editora Intrínseca e
traduzida pela Alessandra Esteche, formada em Letras, com especialização em
Português e Inglês pela Universidade Federal do Paraná.
O livro é narrado em terceira pessoa e dividido em seis capítulos. Ao longo da obra, a autora apresenta estatísticas relacionadas ao tema de cada capítulo, conferindo maior credibilidade à ficção sem comprometer o fluxo da narrativa.
Em Outono de 2015, Kim Jiyoung e seu marido, Jung Daehyun, viajaram para Busan para comemorar o Chuseok com os pais de Daehyun. É durante essa visita que ocorre o primeiro episódio de Jiyoung diante de toda a família. Como era de se esperar, mesmo sem compreender totalmente o que estava acontecendo, eles desaprovam o comportamento da nora.
Para quem não está tão familiarizado com a cultura coreana, Chuseok é um dos feriados mais importantes do país, celebrado em honra à colheita e aos ancestrais. No entanto, quem conhece bem a tradição sabe que, junto com a festividade, vêm também fortes raízes patriarcais. Segundo a tradição, as mulheres da família são responsáveis pela preparação das comidas e pela limpeza do local. No caso, a nora, junto com a sogra e outras mulheres da família, deve organizar a celebração na casa do sogro. É natural que a nova geração relute contra essas tradições retrógradas, o que deve gerar desconforto entre os familiares nos dias de hoje.
No segundo capítulo, Infância (1982-1994), um
tema recorrente na literatura coreana se faz presente: as raízes confucionistas
dentro do lar. E o ponto central dessa tradição é a valorização do
filho homem. Após o nascimento de Jiyoung, ela passou a conviver diariamente com os privilégios concedidos ao irmão pelos pais e pela avó, apesar das ocasionais relutâncias da mãe. Mesmo sendo o mais novo, ele recebia as maiores e melhores porções de comida, as melhores roupas e os melhores materiais escolares, enquanto Jiyoung e sua irmã mais velha, Eunyoung, se continham com o que estivesse disponível.
💬 Isso pode ser visto em outras obras resenhadas aqui no blog como "Jun" e "Please Look After Mom".
"E se... e se for mais uma menina? O que você faria, papai?" Ela esperava ouvir "Como assim, o que eu faria? Menino ou menina, vamos criar com amor. Mas não houve resposta. "Hein?" insistiu. "O que você faria, papai?" Ele se virou para a parede e disse: "Fique quieta e durma. Não dê ideias ao diabo." (2022, p.24)
Basicamente,
ter um filho homem era visto como uma grande conquista, enquanto ter uma filha
era considerado um fardo e uma desonra para a família. Neste capítulo, a autora
menciona as estatísticas de abortos, que, embora legalizados 'por motivos
médicos', revelam como a interrupção da gravidez de meninas na Coreia do Sul
era uma prática comum. Como consequência, nos anos 90, o país atingiu o ápice do
desequilíbrio de gênero, com uma população masculina significativamente maior
do que a feminina.
Como você ousa pegar uma coisa que pertence ao meu precioso neto? O neto e as coisas do neto eram valiosas e deviam ser bem-cuidadas. Ela não deixava que qualquer um tocasse nelas, e Jiyoung ficava abaixo desse "qualquer um". Eunyoung provavelmente tinha a mesma impressão. (2022, p.21)
Além disso, acreditava-se que cabia aos filhos homens trazer
honra e prosperidade à família, enquanto as filhas tinham o dever de
sustentá-los e apoiá-los nos estudos. A mãe de Jiyoung, Oh Misook, sabia que
seus pais nunca incentivariam sua profissionalização, então, por senso
comum, abriu mão da própria educação para trabalhar e custear os estudos dos
irmãos, sem questionar. Anos depois, ao compartilhar com a filha qual era o seu sonho de formação,
Jiyoung riu — para ela, mães só podiam ser mães.
No terceiro capítulo, Adolescência (1995-2000), a autora expõe os constantes assédios sexuais e as discriminações de gênero que a sociedade tende a justificar em relação às meninas, em uma fase em que seus corpos e suas formas de expressão são duramente reprimidos.
Embora seja uma obra ficcional, é impossível não se identificar com as diversas situações que Jiyoung enfrenta, especialmente com a contradição das escolas que não oferecem uniformes mais leves para as meninas durante o verão. (Para quem vive no Brasil e já invejou os meninos de bermuda na escola, sabe exatamente do que estou falando).
A primeira menstruação, os primeiros assédios em transportes públicos e até mesmo a perseguição de pervertidos, que, sendo os verdadeiros culpados, acabam fazendo com que a vítima seja responsabilizada por "andar sozinha à noite na rua" ou "usar tal roupa", traumatizando-a por um bom tempo.
Jiyoung abandonou o cursinho preparatório. Durante muito tempo, não conseguiu ficar no ponto de ônibus depois que escurecia. Parou de sorrir para as pessoas e não estabelecia contato visual com estranhos. Tinha medo de todos os homens e às vezes gritava ao dar de cara com o irmão mais novo na escadaria. Mas continuava pensando no que a mulher tinha dito. Não é minha culpa. Tem muito mais caras incríveis por aí. Se a mulher não tivesse lhe dito isso, Jiyoung viveria com medo por mais tempo ainda. (2022, p.65)
No Início da Vida Adulta (2001-2011), Jiyoung ingressa na faculdade, se forma e começa a procurar seu primeiro emprego. Também surge um primeiro romance, mas logo é abalado pela ida do namorado ao exército. Ao conseguir um emprego em uma empresa de marketing, ela novamente se depara com a hierarquia misógina e discriminatória dos superiores. É induzida a fazer tarefas que não deseja, além de ser excluída de projetos que gostaria de participar, mais uma vez evidenciando a natureza discriminatória das relações empresariais na Coreia do Sul.
Ainda assim, sentia orgulho de trabalhar com o que desejava e ter seu próprio dinheiro para gastar como quisesse. Mas isso logo muda no capítulo Casamento (2012-2015), com a chegada de Jung Daehyun. A família do casal passa a esperar, acima de tudo, que Jiyoung tenha um filho. As perguntas insistentes sobre quando e por que ainda não engravidou começam a irritá-la, especialmente porque, quando o assunto é renúncia, a mulher recebe uma lista interminável do que terá que abrir mão, enquanto o marido apenas promete "ajudá-la em tudo", como se não fosse também sua responsabilidade, mas um favor.
Esse capítulo me lembrou Calibã e a Bruxa (2017), de Silvia Federici, pois ambas as obras revelam o sexismo estrutural ao reduzir as mulheres a posições subordinadas, como se seus corpos se limitassem à função reprodutiva.
Após pedir demissão, Jiyoung reflete sobre a dependência financeira em relação ao marido e como sua posição de "dona de casa" é, ao mesmo tempo, menosprezada por uns e glorificada por outros, mas nunca reconhecida em termos de valor monetário. Ainda que ela cozinhe, lave as roupas, limpe a casa e cuide da filha recém-nascida, seu trabalho é visto como uma obrigação natural, não como uma contribuição essencial para o funcionamento do lar.
Enquanto que, por outro lado, o esforço do marido fora de casa é validado financeiramente e socialmente, reforçando a ideia de que apenas o trabalho remunerado tem valor.
O último capítulo, chamado 2016, traz uma grande revelação — deixo aqui um toque de suspense para que vocês descubram por conta própria.
Assim como Yeonghye, em A Vegetariana, se vê sufocada pelas expectativas sociais a ponto de não encontrar espaço para si mesma em seu próprio corpo, restando apenas a alternativa de se transformar em algo ou alguém diferente, Kim Jiyoung enfrenta a mesma luta. Ambas vivenciam a metamorfose como uma forma de transgressão às normas patriarcais, ainda que sejam vistas como insanas. Apesar de ser um romance, a obra carrega um profundo embasamento social, tornando-se essencial para compreender não apenas a discriminação enfrentada pelas mulheres sul-coreanas, mas também as dinâmicas opressivas que se repetem em diferentes partes do mundo.
A autora
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(Cho Nam-Joo) |
Referência Bibliográfica
NAM-JOO, Cho. Kim Jiyoung, nascida em 1982. Tradução de Alessandra Esteche - 1. ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2022.
Desde que conheci mais, a literatura coreana me interessa muito! E as resenhas daqui sempre terminam com mais um livro na minha lista. Este vai ser mais um!
ResponderExcluirAdorei que a resenha trouxe informações sobre a cultura da Coreia que são pontos essenciais para entender o enredo do livro!
ResponderExcluirEu assisti apenas o filme, achei maravilhoso, e agora estou ansiosa para ler o livro também!