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(Ilustração da Capa: Banzisu) |
Tema: Empatia, Solidariedade, Transformação, Recomeço
A Inconveniente Loja de Conveniência é uma novela literária que apresenta o encontro e o desenvolver de um companheirismo entre a Senhora Yeom, ex-professora de história aposentada e dona da loja de conveniência 'Always', e Dok-go, um homem alto e robusto, que vivia na Estação de Seul.
Essa 6ª edição foi publicada em 2024 pela Editora Bertrand Brasil e traduzida por Jae Hyung Woo, com revisão de Thomas N. O livro é dividido em 8 partes, narrado em terceira pessoa - com exceção do último capítulo, que é narrado em primeira pessoa - cada qual apresentando a história de novos personagens que têm suas jornadas entrelaçadas com a loja de conveniência.
A vida é uma série de resoluções de problemas. (2024, p.129)
Dok-go vivia em situação de rua na Estação de Seul. Após impedir que alguns malandros roubassem a carteira da Senhora Yeom, ela decide recompensá-lo com marmitas diárias. Assim, todos os dias, Dok-go ia até a loja de conveniência pegar sua refeição, comia e desaparecia. Em uma nova tentativa de roubo, só que agora na loja, ele evita que os ladrões fujam, e, graças a esse ato heroico, a Senhora Yeom decide contratá-lo.
A partir desse momento, a história revela o impacto de Dok-go na vida dos funcionários e dos clientes da loja de conveniência, após ser contratado pela Senhora Yeom. Ele não consegue lembrar de seu passado, o que desperta ainda mais curiosidade nas pessoas ao seu redor e até mesmo em nós, leitores. Enquanto alguns sentem desprezo e preconceito por ele, outros compartilham desabafos sobre conflitos familiares, dilemas internos e questionamentos sobre o propósito da vida.
Shi-hyeon é a primeira funcionária da loja de conveniência a interagir com Dok-go. Ela assume a responsabilidade de treiná-lo e, aos poucos, ela se desfaz do preconceito e começa a enxergá-lo como uma pessoa comum, como qualquer outra. Durante esse período, Dok-go sugere que ela crie um canal no YouTube para ensinar outros funcionários a operar o sistema POS da loja, e ela aceita a ideia.
A supervisora do turno da manhã, Seon-suk Oh, ou Senhora Oh, também conhece o novo funcionário e, talvez por sua idade avançada, seu preconceito é ainda mais forte. Mas, certo dia, incapaz de conter a mágoa, ela desabafa com ele sobre a frustração de ter um filho que passa os dias trancado no quarto jogando videogame, em vez de buscar um bom emprego e lhe trazer orgulho. Ela lamenta que, após o marido ir embora de casa, lhe restou apenas um filho mal-educado, fazendo com que sua única confiança recaia sobre seus cachorros.
Em uma tentativa de confortá-la, Dok-go lhe sugere algo que considera essencial para que mãe e filho reconstruam a confiança e melhorem a comunicação.
Seon-suk passou a confiar em Dok-go por ele ter aumentado as vendas e tornado seu trabalho mais fácil. Foi provavelmente nessa época que ela começou a enxergá-lo como um cachorro, e não mais um urso. (2024, p.97)
Um dos clientes, Gyeong-man Lee, vai até a loja de conveniências todas as noites após o trabalho. Seu combo favorito? Cham cham cham: Lámen de gergelim, kimbap de atum e soju Chamisul. Para ele, saborear essa combinação é a maneira perfeita de adiar a volta para casa, para a família, isso porque, por mais delicioso que seja, esse ritual serve apenas para mascarar sua própria insatisfação profissional. Tudo o que ele gostaria é que sua empresa reconhecesse o seu valor e o promovesse.
Ao presenciar essa cena diariamente, Dok-go percebe que, assim como ele próprio já afogou suas angústias no soju — a ponto de perder a memória —, Lee não poderia seguir pelo mesmo caminho. O álcool não era um aliado. Então, ele lhe oferece algo tão bom quanto, porém inusitado: chá de cabelo de milho.
Durante esse mesmo período, In-gyeong Jeong, que havia desistido de ser atriz para se tornar dramaturga, consegue um cantinho no terceiro andar de um prédio em Cheongpa-dong, em frente à loja de conveniência. Sem inspiração para escrever, ela passa suas noites acordada na sacada, observando a movimentação da loja até que, Gyeong-man Lee, um completo desconhecido para ela, despertou seu interesse. Decidida a investigá-lo, como parte da pesquisa para sua escrita, ela experimenta o Cham cham cham. A partir daquela noite, ela começou a visitar Dok-go todas as madrugadas, fazendo mais e mais perguntas.
- O palco é uma loja de conveniência. Uma loja de conveniência onde gente de todo tipo entra e sai. O protagonista é um funcionário misterioso do turno da noite.
- Humm...
- Ele é um homem de meia-idade, mas ele não se lembra de nada do seu passado. O álcool lhe causou demência. Os clientes dão palpites entre si sobre a identidade do homem. Ladrão, ex-presidiário, desertor norte-coreano, aposentado, voluntário, um alienígena quem sabe? [...] (2024, p.157)
Ao final, Dok-go, que tanto ajudou a solucionar os problemas dos outros, decide enfrentar os seus próprios e retomar suas lembranças.
A obra, reconhecida como 'literatura de cura' nos leva a refletir sobre as imperfeições da vida cotidiana e como a loja de conveniência se torna um ponto de encontro para indivíduos que, apesar de suas frustrações e desilusões, buscam, de alguma forma, alívio e compreensão. Por mais que se encontrem em situações desconfortáveis, os personagens começama a curar suas próprias feridas através de pequenas conexões, gestos de bondade e autoconhecimento.
Ela sabia muito bem que uma loja de conveniência era um lugar onde as pessoas iam e vinham com frequência, e, tanto para os clientes quanto para os funcionários, era um lugar temporário, um posto de gasolina para humanos. Eu sabia que ela compreendia. Naquele posto de gasolina, não só abasteci, mas também consertei o carro. Uma vez feito o conserto, eu precisava partir. Tinha que voltar para a estrada[...](2024, p.245)
O autor
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Kim Ho-yeon com a versão espanhol de 'A Inconveniente Loja de Conveniência' no Centro Cultural Coreano na Espanha |
Kim Ho-yeon nasceu em 1974, na Coreia do Sul, é escritor, roteirista e ilustrador. Desde seu romance de estreia, Mangwon-dong Brothers, tem conquistado diversos prêmios e reconhecimentos, incluindo o World Literary Award, em 2013, o Bucheon Cartoon Story Contest, em 2005, o Book of the Year Award da Yes 24, em 2022, além de ser eleito o audiobook do ano em 2021 pela Millie, a maior plataforma de e-books e audiobooks da Coreia. Seu quinto romance, A inconveniente loja de conveniência, foi o livro mais vendido da Coreia do Sul em 2022, superando a marca de 1 milhão de exemplares vendidos.
Referência Bibliográfica
KIM, Ho-yeon. A inconveniente loja de conveniência. 6. ed. Tradução de Jae Hyung Woo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2024.
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